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O desejo que você persegue talvez não tenha nascido em você

Foto do escritor: Fernanda Oberlaender
Fernanda Oberlaender
3 de out.
2 min de leitura

Nossas ambições raramente são fruto de uma escolha isolada. Existe um emaranhado de expectativas alheias que chamamos de nossas, até o momento em que a alma cansa de carregar o que não lhe pertence.


Lacan formulou isso com uma precisão desconcertante: o desejo humano é o desejo do Outro. Muito antes de termos palavras para nomear o que sentimos, aprendemos a ler no rosto de quem cuida de nós aquilo que atrai o olhar e aquilo que o afasta. A criança percebe, com uma inteligência anterior à linguagem, que certos gestos trazem de volta a atenção, o sorriso, a aprovação. E passa a repeti-los. Com os anos, essa estratégia de sobrevivência afetiva se sedimenta a ponto de ganhar a aparência de vocação, e o adulto já não consegue distinguir o que deseja daquilo que um dia precisou desejar para ser amado.


A neurobiologia ajuda a entender por que essa confusão é tão persistente. O sistema dopaminérgico responde com mais intensidade à antecipação da recompensa do que à sua chegada, e boa parte dessa antecipação foi calibrada nas primeiras relações. Se o reconhecimento de um pai dependia das notas no boletim, o cérebro registrou desempenho como via de acesso ao afeto. Décadas depois, a promoção conquistada produz um alívio breve, seguido de uma estranha sensação de vazio, porque o que se buscava nunca esteve no cargo. Estava na esperança antiga de, finalmente, ser visto.


René Girard acrescentou outra camada a esse quadro ao descrever o desejo como mimético: queremos aquilo que vemos os outros quererem. A casa, o corpo, o estilo de vida, a carreira que parece admirável. Nada disso surge de uma consulta à própria interioridade. Surge da observação, da comparação, de uma necessidade muito humana de pertencer. Quando a ambição se constrói sobre esse terreno, cada conquista exige a próxima, e a pessoa vive numa espécie de dívida que nunca termina de pagar.


O cansaço da alma, então, merece ser escutado como informação. Ele costuma aparecer quando a energia investida num objetivo deixa de encontrar ressonância interna, quando o corpo continua cumprindo a agenda algo mais sutil já se retirou. Muitas tradições espirituais leem esse esgotamento como um chamado de retorno, e eu concordo com elas: há uma parte de nós que sabe distinguir o que é próprio do que foi emprestado, e ela se manifesta pela recusa, pela apatia, pela falta de alegria diante daquilo que deveria nos realizar.


Uma pergunta simples costuma abrir esse território com honestidade: se ninguém jamais soubesse desta conquista, eu ainda a desejaria? A resposta raramente vem pronta. Às vezes ela revela que o desejo era genuíno e só estava soterrado sob a pressa de provar alguma coisa. Outras vezes mostra que passamos anos subindo uma escada encostada na parede errada. Em ambos os casos, reconhecer a origem de um desejo devolve à pessoa a possibilidade de escolher, e escolher com consciência é o que transforma uma herança em caminho próprio.

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