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“Fernanda, como saber se um desejo é legítimo meu ou se só estou tentando provar meu valor para os outros?”

Foto do escritor: Fernanda Oberlaender
Fernanda Oberlaender
3 de out.
3 min de leitura

A resposta curta é: pela sensação de pressa. O desejo genuíno tem paciência; o desejo por performance tem urgência de aplauso. Vamos aprofundar?


Essa pressa tem uma assinatura fisiológica bastante reconhecível. Quando um objetivo está a serviço da validação, o sistema nervoso o trata como uma questão de sobrevivência social, e o pertencimento, para um cérebro moldado ao longo de milênios de vida em grupo, sempre foi sinônimo de permanecer vivo. As pesquisas de Naomi Eisenberger mostraram que a rejeição social ativa regiões cerebrais sobrepostas às que processam a dor física. Por isso o desejo de provar valor vem acompanhado de tensão, de uma inquietação no peito, da sensação de que cada dia sem resultado visível é um dia perdido. O corpo está em modo de defesa, e a defesa nunca sabe esperar.


O desejo legítimo mobiliza outro circuito. Jaak Panksepp descreveu um sistema emocional que chamou de busca, ligado à curiosidade, à exploração e ao prazer de se envolver com algo pelo que ele é. Quando é esse o motor, o processo deixa de ser um pedágio a pagar até a chegada e passa a ter valor em si. A pessoa consegue permanecer horas num trabalho que ninguém verá, tolera os erros com mais leveza e sente uma espécie de nutrição mesmo quando o resultado ainda está distante. O tempo, nesse estado, se torna aliado.


Há alguns sinais práticos que ajudam a fazer essa distinção no dia a dia. O primeiro é observar como você reage ao sucesso de alguém que trilha um caminho parecido com o seu. Quando o desejo é seu, a conquista alheia costuma inspirar ou, no máximo, provocar uma admiração com um leve incômodo que logo passa. Quando o desejo é uma tentativa de provar valor, o êxito do outro soa como ameaça, como se houvesse uma quantidade limitada de reconhecimento no mundo e cada aplauso destinado a outra pessoa fosse subtraído de você. Outro sinal está na relação com o fracasso: o desejo legítimo sobrevive a uma derrota com tristeza, enquanto o desejo de validação a vive como humilhação, uma confirmação daquilo que a pessoa mais teme sobre si mesma.


A psicanálise oferece uma chave útil aqui ao distinguir o desejo do ideal do eu. O ideal é uma imagem construída a partir do olhar dos outros, uma versão de nós que imaginamos digna de amor. Persegui-lo dá trabalho constante, porque a imagem nunca se completa e cada conquista revela uma nova lacuna. O desejo, quando é autêntico, nos move em direção a algo que faz sentido, sem precisar de testemunhas. Quem confunde os dois passa a vida tentando se tornar alguém, quando o movimento verdadeiro seria se aproximar de quem já se é.


Proponho um exercício simples, que tenho visto funcionar muito bem na clínica. Escolha um objetivo que hoje ocupa sua energia e imagine que você o alcançou, mas que ninguém jamais ficará sabendo: nenhuma publicação, nenhuma conversa, nenhum olhar de admiração. Depois observe o que acontece no corpo. Se surgir uma sensação de expansão, de calma ou de contentamento, há grandes chances de esse desejo ser seu. Se o que aparece é um esvaziamento, uma súbita perda de interesse, vale investigar a quem esse projeto está tentando responder. Essa descoberta costuma doer um pouco, e essa dor é o começo de uma liberdade que nenhuma validação externa consegue oferecer.

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